Agentes de limpeza falam com orgulho da profissão

“Tudo que eu tenho, abaixo de Deus, agradeço à minha profissão”. Emocionado, o agente de limpeza urbana Edvaldo Santos, de 62 anos, fala com orgulho sobre o que conquistou atuando como gari na capital baiana. Assim como ele, 4 mil homens e mulheres trabalham para manter Salvador – incluindo as ilhas pertencentes ao Município – limpas e bonitas diariamente. Em alusão ao Dia do Gari, celebrado nesta segunda (16 de maio), o profissional da Empresa de Limpeza Urbana (Limpurb) ressalta os 38 anos de história na instituição.


O despertador toca às 4h30 todos os dias. Ao usar o macacão azul, que indica a atuação nas praias, Edvaldo se veste da responsabilidade de manter a cidade limpa. Antes do começo do expediente, já no caminho de casa até o ponto de ônibus, o agente inicia a missão.

“Quando eu passo no meu bairro e vejo lixo e sacos nas portas, mesmo fora do horário de trabalho, faço questão de retirar e descartar no local correto. Acho que a limpeza está no meu DNA, e não tenho vergonha de dizer em alto e bom som: Eu sou gari e ser gari é sinônimo de asseio”.

Dificuldades e preconceito – A cada frase verbalizada por Edvaldo, a emoção e a honra definem o sentimento do gari. “Além de gratidão, tenho muito orgulho da minha profissão. Foi aqui, através da minha labuta, que garanti os estudos das minhas filhas. Tudo que elas são hoje é fruto do meu trabalho como agente de limpeza desta cidade. Foi nas ruas, varrendo as avenidas e praias de Salvador, que conquistei todas as glórias da minha vida”, disse.

Formada em direito por uma faculdade particular, a filha mais velha de Edvaldo mora na Holanda há 14 anos. Durante a graduação, uma porcentagem das mensalidades foi custeada pela Limpurb, através de convênios. A outra parte foi paga pelo agente de limpeza. Se hoje, o trabalho de Edvaldo é motivo de orgulho para ele e tantos outros agentes de limpeza, antigamente o gari era alvo de preconceito. Ao lembrar do início da carreira, o profissional fala sobre as dificuldades enfrentadas no exercício da função.

“Nos anos 80, ser gari era muito difícil. Quem trabalhava nos caminhões, pendurados, sofria muito preconceito. Durante 38 anos de empresa passei por muitas situações de discriminação. As pessoas passavam nos automóveis e gritavam ‘cheiroso’, ‘cenoura’, nós éramos motivos de piada. Ao entrar no transporte coletivo, com a farda, após um dia de trabalho árduo, via as pessoas colocando a mão no nariz. Quando entrei na Limpurb, por dificuldades financeiras, ninguém queria ser gari”.


No entanto, com o decorrer dos anos, a sociedade passou a entender a importância do agente de limpeza para a cidade. “Hoje, a visão é diferente. O gari tem um grande respaldo perante a população. Adquirimos o respeito das pessoas. O lixeiro deixou de ser o profissional de limpeza urbana e passou a ser aquele que joga o lixo na rua. É o justo, já que, se nós limpamos nossa cidade, não tem porque nos chamar de lixeiro. O que era um trabalho árduo, difícil e visto com muito preconceito, passou a ser bem quisto. Hoje, vejo muita gente em busca de vaga para ser gari. Acho que isso se deve a maior estrutura de trabalho que temos, e aos novos equipamentos que favorecem o labor”, conclui Edvaldo.

Preservação ambiental – Conhecido como Cacau, Carlos Alberto Sales, de 46 anos, atua como agente da Empresa de Limpeza Urbana (Limpurb) desde 2019, na Ilha de Maré, em Salvador. Formado em História, pós graduado em projetos ambientais, o líder comunitário enxergou nos serviços de gari uma forma de servir a comunidade em que mora, garantindo o sustento do lar.

Membro de projetos sociais e ambientais da Ilha de Maré, Cacau fala com orgulho sobre os serviços desempenhados como gari.

“A Limpurb surgiu na minha vida sob o aspecto da necessidade de servir a minha comunidade. Através do trabalho realizado como agente de limpeza, eu contribuo para as questões ambientais da ilha, e mesmo com o salário abaixo do que ganho como historiador e professor, me sinto mais útil. Entendo como uma missão de vida e sou feliz dessa forma. Quando vejo o resultado do meu trabalho, compreendo o quanto é significante a minha contribuição para a sociedade.”

Apesar de já ter recebido convites para retornar às atividades em sala de aula, com salário maior do que recebe como agente de limpeza, Cacau se recusa a abandonar o atual trabalho.

“Enquanto pessoa, tenho o sonho de ver a minha comunidade preservada. Então, sinto que ganho muito mais cumprindo o meu dever como agente de limpeza. É muito gratificante, através do sonho de manter o meio ambiente, poder levar o sustento para minha casa. Por meio do meu trabalho, levo o pão de cada dia para o meu lar e alimento minha alma”.

Equipamentos usados – Para contribuir com a preservação natural da Ilha de Maré, Cacau sai todos os dias, às 6h45. A honra de trabalhar na limpeza da comunidade em que mora faz os olhos de Cacau brilharem. “Sinto orgulho do meu trabalho, e sou referência não só para minha família, mas para a minha comunidade. Cada sorriso que recebo nas ruas é gratificante. Pelo convívio que tenho, sinto que sou um orgulho para todos”, finalizou.



 

 

 

 

Clara

Estudante de Letras, Clara Paixão auxiliou diversos autores conservadores em Recife e Carpina (PE). Amante da Liberdade, Clara entende que são preceitos básicos: direito irrestrito ao projeto de vida do próximo, direito à propriedade privada e livre mercado.

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