Categories: DestaquesPolícia

Genocídio escancarado, por Ireuda Silva

Chegamos a mais um “Novembro Negro”, mês de reflexão e resistência, com um cenário preocupante no que se refere às vidas e à integridade física do povo negro no Brasil. Segundo o Atlas da Violência 2018, com base em dados do Ministério da Saúde, entre 2006 e 2016, a taxa de homicídios de indivíduos negros cresceu 23,1%. Por outro lado, a taxa entre indivíduos não negros caiu 6,8%.

Além disso, temos um jovem assassinado a cada 23 minutos, e nos estados das regiões Norte e Nordeste essa questão se mostra especialmente sensível. Na Bahia, a taxa de homicídios como um todo cresceu 98% em 10 anos. Entre negros, o crescimento foi de 104,4%. Cidade mais negra fora da África, Salvador é sem dúvida protagonista nessa carnificina, reflexo de descaso com os serviços públicos básicos, corrupção, desigualdade socioeconômica e de um processo histórico iniciado com a escravidão nos primórdios do Brasil.

Formalmente libertos em 1888, os ex-escravos nunca foram contemplados com políticas públicas efetivas e consistentes que os incluíssem na sociedade brasileira. Pelo contrário: permanecem até hoje em uma situação de vulnerabilidade, sem acesso a educação, saúde, lazer, cultura e mercado de trabalho, alimentando um círculo vicioso que só se traduz em mais desigualdade, mais violência e mais mortes.

Nossa Bahia está banhada em sangue, e enquanto se defende políticas de repressão cada vez mais ostensivas, seguimos na lanterninha do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), com o pior ensino médio do país. Seria mera coincidência a relação entre esses dois indicadores aqui citados – violência e educação? É preciso ser muito cego, ou intelectualmente desonesto, para dizer que sim.

Outro dado: o feminicídio, ou seja, o assassinato de mulheres por questões de gênero, atinge principalmente as mulheres negras. Entre 2003 e 2013, o número de mulheres negras assassinadas cresceu 54%. Enquanto isso, o feminicídio de brancas caiu 10%.

Políticas de repressão nunca foram e nunca serão o caminho para se resolver o problema da violência urbana, intimamente relacionada às desigualdades e à exclusão. O que precisamos é de políticas de desenvolvimento, com destaque para uma educação pública de qualidade, que realmente inclua e ofereça perspectivas que ultrapassem os apelos e as soluções fáceis oferecidas pela criminalidade. Construir um país significa garantir que todos os seus cidadãos tenham condições mínimas para construir uma vida digna. Em ano de eleições e no mês da Consciência Negra, é mais do que oportuno refletir sobre isso.

Mathias Jaimes

Mathias Ariel Jaimes ( DRT 5674 Ba ) , é CEO do site #TVServidor e sócio-proprietário da agência de comunicação interativa #TVS1 . Formado em publicidade na Argentina. Estudou artes plásticas na Universidade Federal da Bahia. MBA em marketing e comunicação estratégica na Uninassau. Aluno do professor Olavo de Carvalho, Curso Online de Filosofia, desde 2015.

Recent Posts

Prefeitura de Lauro de Freitas realiza mutirão de limpeza no Parque Alameda dos Ingazeiros, no Centro

Reforçando as ações contínuas para manter a cidade limpa, a Prefeitura de Lauro de Freitas,…

4 horas ago

Prefeitura de Salvador promove oficinas participativas para revisão do PDDU em diversos bairros

Nesta sexta-feira (17), a Prefeitura de Salvador, por meio da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano…

4 horas ago

Une Cozinha estreia segunda temporada unindo cardápio autoral e exposição inédita em convite à pausa e conexão

No Rio Vermelho, em Salvador, o Une Cozinha abre sua segunda temporada, nesta quinta-feira (16),…

5 horas ago

“Mão Santa” Oscar Schmidt morre aos 68 anos

O basquete mundial perdeu um dos seus maiores nomes nesta sexta-feira (17): Oscar Schmidt morreu…

17 horas ago

Credcesta / Banco Master. Cezar Leite aciona TJ com Ação Popular contra descontos irregulares em folha de servidores da Bahia

O vereador de Salvador, Cezar Leite (PL), intensificou sua ofensiva jurídica contra o que classifica…

18 horas ago

This website uses cookies.