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A Argentina viveu nesta quinta-feira (6) uma jornada de forte tensão política e social. Enquanto o Senado discutia a chamada Lei de Inviolabilidade da Propriedade Privada, proposta pelo governo de Javier Milei, manifestantes entraram em confronto com as forças de segurança nas imediações do Congresso, em Buenos Aires. A polícia usou gases e balas de borracha para dispersar grupos que atiraram pedras, incendiaram contêineres e danificaram estruturas públicas. Os primeiros balanços apontaram pelo menos dez detidos e agentes de segurança feridos.
O projeto se transformou no principal assunto da política argentina porque originalmente permitiria ampliar ou eliminar restrições para a compra de terras rurais por estrangeiros. Diante da resistência de governadores, senadores aliados, organizações sociais e parte da opinião pública, o governo retirou do texto o capítulo mais polêmico antes da votação. A legislação atualmente limita a participação estrangeira a 15% das terras rurais em níveis nacional, provincial e municipal.
O recuo, porém, não encerrou a disputa. A versão que permaneceu em debate prevê mudanças nos processos de desocupação de imóveis, nas regras para expropriações estatais, na regularização de propriedades e na Lei de Manejo do Fogo. Um dos pontos mais questionados acelera os procedimentos judiciais para despejos; outro reduz restrições sobre a mudança de uso de áreas produtivas e pastagens atingidas por incêndios. O governo argumenta que as alterações reforçam a segurança jurídica, enquanto opositores alertam para riscos sociais e ambientais.
A mobilização reuniu sindicatos, movimentos sociais, organizações ambientais e grupos políticos sob o slogan “La patria no se vende” — “A pátria não está à venda”. Mesmo depois da retirada do capítulo sobre terras estrangeiras, as entidades mantiveram o protesto por considerarem que o restante da proposta ainda facilita despejos e flexibiliza proteções sobre áreas afetadas pelo fogo. O governo mobilizou centenas de agentes para cercar o Congresso e controlar os acessos à região central de Buenos Aires.
A discussão ultrapassou o Congresso e tomou as redes sociais argentinas. A cantora Lali Espósito havia convocado seguidores a participar do protesto, enquanto Antonela Roccuzzo, esposa de Lionel Messi, curtiu uma publicação crítica ao projeto de mudança nas regras para a propriedade estrangeira de terras. As manifestações de figuras populares ampliaram a repercussão de um debate que já mobilizava artistas, sindicalistas, ambientalistas, produtores rurais e políticos de diferentes províncias.
Até o fechamento desta reportagem, o debate no Senado continuava e a votação era esperada apenas depois da meia-noite. O oficialismo trabalhava para garantir maioria à versão reduzida do projeto, agora sem o capítulo sobre a venda de terras a estrangeiros. A jornada representou, ao mesmo tempo, uma concessão importante de Milei diante da pressão política e uma demonstração de que o governo pretende seguir adiante com o restante de sua reforma da propriedade privada.
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