A pesquisa Real Time Big Data divulgada nesta segunda-feira (28), que colocou Jerônimo Rodrigues (PT) com 47% e ACM Neto (União Brasil) com 43% das intenções de voto na disputa pelo Governo da Bahia, abriu uma discussão que vai além dos números: quem efetivamente consegue responder ao levantamento e quais mecanismos garantem que as respostas sejam dadas pelos eleitores selecionados?
Segundo os dados divulgados pelo instituto, foram realizadas 1.600 entrevistas entre os dias 23 e 26 de setembro, com margem de erro de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, e nível de confiança de 95%. A pesquisa está registrada sob o número BA-01777/2026.
A Real Time Big Data utiliza entrevistas por telefone e recrutamento digital (Whatsapp) em seus levantamentos, modelo que torna ainda mais importante explicar detalhadamente os controles utilizados na seleção e validação das respostas.
Nas últimas horas, a TVS1 recebeu relatos e prints de WhatsApp que levantam questionamentos justamente sobre essa etapa do processo.
Dois leitores afirmaram que estrangeiros, que segundo eles “não votam no Brasil”, receberam convites pelo WhatsApp e conseguiram acessar e responder um formulário eletrônico relacionado ao levantamento.
Segundo os relatos encaminhados à redação, pelo menos uma das primeiras perguntas “pôde ser respondida normalmente”, mesmo por pessoas que não fariam parte do eleitorado brasileiro.
A TVS1 não tem elementos, neste momento, para afirmar que essas respostas foram incluídas nas 1.600 entrevistas consideradas válidas pela Real Time Big Data. O episódio, entretanto, levanta uma questão objetiva: quais mecanismos impedem que uma pessoa que não pertence ao “universo eleitoral brasileiro” pesquisado responda ao questionário e tenha sua participação considerada?
Outro relato recebido pela TVS1 envolve um idoso de 94 anos.
Segundo a filha, que atualmente mora fora do Brasil e acompanha à distância o celular e a rotina do pai, ele recebeu o convite para participar da pesquisa, mas teve dificuldades para utilizar o aplicativo e acabou entregando o aparelho à auxiliar de enfermagem “que cuida diariamente dele”.
De acordo com a filha, foi a profissional quem terminou de preencher o formulário. Quando ela percebeu o ocorrido e “tentou corrigir as respostas, o questionário já aparecia completamente preenchido”.
Novamente, não é possível afirmar que aquele formulário integrou a amostra final divulgada nesta segunda-feira.
O relato, porém, coloca outra pergunta na mesa: como a Real Time Big Data garante que a pessoa selecionada é, de fato, quem responde ao questionário, especialmente quando a participação ocorre de maneira remota?
Existe jurisprudência – As dúvidas merecem esclarecimento porque a Real Time Big Data já esteve envolvida neste ano em questionamentos perante a Justiça Eleitoral em outros estados.
Em setembro, o Tribunal Regional Eleitoral de Alagoas suspendeu liminarmente a divulgação da pesquisa AL-08227/2026, realizada pela Real Time Mídia Ltda., diante de dúvidas relacionadas à comprovação da origem dos recursos utilizados para custear o levantamento.
Em julho, o mesmo tribunal aplicou multa de R$ 53.205 à empresa responsável por outra pesquisa após concluir que informações obrigatórias sobre contratante, responsável pelo pagamento, origem dos recursos e documentação fiscal não haviam sido corretamente apresentadas no sistema eleitoral. Naquela decisão, o próprio TRE ressaltou que questionamentos sobre metodologia, como ponderação de renda e delimitação da área de entrevistas, não haviam sido suficientes para demonstrar comprometimento do levantamento.
Diante dos relatos e registros recebidos pela TVS1, a Real Time Big Data precisa esclarecer quantos convites foram enviados para chegar às 1.600 entrevistas válidas, quantos questionários foram iniciados e posteriormente descartados, como é confirmado o domicílio eleitoral do participante, quais mecanismos impedem que outra pessoa responda em nome do eleitor selecionado e como são tratadas participações feitas por pessoas que estejam fora do país.
Pesquisa eleitoral não é enquete de WhatsApp: precisa seguir critérios técnicos, amostragem, controles e mecanismos de validação capazes de sustentar os percentuais apresentados ao eleitor.
Até que essas perguntas sejam respondidas, os relatos recebidos pela TVS1 não comprovam manipulação ou fraude, mas justificam uma cobrança objetiva por mais transparência sobre o funcionamento do recrutamento digital utilizado no levantamento que apresentou Jerônimo Rodrigues com 47% e ACM Neto com 43%.
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