Nazistas, Perón e futebol: como nasceu o rótulo de uma Argentina racista

Feito em IA – Montagem TVS1

Bastou um celular ligado dentro do ônibus da seleção argentina para que um velho julgamento voltasse a percorrer o mundo. Depois da conquista da Copa América de 2024, um vídeo publicado pelo jogador Enzo Fernández mostrou integrantes da equipe cantando uma música ofensiva sobre atletas franceses de origem africana. A Federação Francesa denunciou o conteúdo como racista e discriminatório, a Fifa abriu uma investigação e o próprio Fernández pediu desculpas. Em poucas horas, porém, a discussão deixou de ser apenas sobre os responsáveis pela gravação: nas redes sociais, a Argentina inteira voltou ao banco dos réus.

A cena produziu uma pergunta difícil, mas necessária: a Argentina é realmente um país racista ou episódios verdadeiros estão sendo utilizados para carimbar uma população inteira?

A resposta não cabe nem na negação patriótica, segundo a qual todo questionamento seria uma perseguição, nem na condenação coletiva que transforma quase 50 milhões de pessoas em cúmplices de cada cântico, insulto ou crime cometido por um argentino.

Para compreender como esse rótulo ganhou tamanha força, é preciso sair momentaneamente do estádio e voltar à formação do país.

A Argentina moderna foi construída por grandes ondas migratórias e por um projeto de nação que associava a Europa ao progresso. Italianos e espanhóis chegaram aos milhões, acompanhados por judeus, árabes, alemães, eslavos e inúmeras outras comunidades. Essa diversidade ajudou a transformar Buenos Aires e outras cidades em centros culturais cosmopolitas. Ao mesmo tempo, antigas elites difundiram uma imagem predominantemente branca e europeia do país, reduzindo a visibilidade histórica de indígenas, afro-argentinos e mestiços.

A Argentina real sempre foi mais complexa do que o retrato que escolheu projetar.

Essa construção nacional deixou feridas que não podem ser escondidas. Povos indígenas sofreram campanhas militares, expulsões e perda de territórios; a presença afro-argentina, importante desde o período colonial, foi frequentemente empurrada para fora da memória pública. Reconhecer essas exclusões não equivale a declarar que o argentino nasce racista. Significa admitir que a identidade nacional foi construída, como em outros países das Américas, por uma mistura de imigração, orgulho cultural, conflitos territoriais e silêncios históricos.

No século XX, o cenário ficou ainda mais carregado. A Argentina assistiu ao surgimento de organizações nacionalistas, católicas, militares e antiliberais que receberam influências do fascismo italiano, do falangismo espanhol e, em alguns núcleos, do nacional-socialismo alemão. Nem todo nacionalista argentino era nazista, assim como nem todo conservador defendia uma ditadura. Havia desde católicos corporativistas e anticomunistas até grupos abertamente antissemitas.

O erro está tanto em apagar essas correntes quanto em transformar todo nacionalismo argentino numa cópia de Hitler.

É nesse ambiente que aparece Juan Domingo Perón, personagem sem o qual a Argentina contemporânea não pode ser compreendida. Perón observou a experiência política italiana, valorizou a organização corporativa, a intervenção estatal nas relações trabalhistas, a liderança carismática e a chamada terceira posição entre o capitalismo liberal e o comunismo. Mas o movimento que construiu adquiriu características próprias: mobilizou trabalhadores, fortaleceu sindicatos, ampliou direitos sociais e atravessou gerações reunindo correntes de direita, esquerda e centro. Por isso, embora existam influências autoritárias e fascistas debatidas por historiadores, reduzir o peronismo a uma simples filial de Mussolini empobrece a história argentina.

O capítulo mais comprometedor, entretanto, viria depois da Segunda Guerra Mundial. Criminosos e integrantes do regime nazista conseguiram chegar à Argentina utilizando redes de fuga, documentos falsos e identidades clandestinas.

Adolf Eichmann, figura central na organização das deportações de judeus para guetos e centros de extermínio, viveu no país com o nome de Ricardo Klement até ser capturado por agentes israelenses em 1960.

Josef Mengele, médico da SS responsável por seleções e experimentos em Auschwitz, desembarcou na Argentina em 1949 e chegou a obter cidadania antes de seguir para o Paraguai.

Isso não é lenda, exagero cinematográfico nem invenção de adversários externos. O próprio Arquivo Geral da Nação Argentina disponibiliza documentação sobre a chegada e as atividades de integrantes do nazismo no território nacional. Em abril de 2025, o governo anunciou a abertura digital de documentos desclassificados relacionados a essas atividades e a decretos presidenciais secretos. O acervo confirma que existiram redes, cumplicidades e decisões oficiais que precisam ser estudadas. O que ele não comprova é que toda a sociedade argentina tenha aderido ao nazismo ou aprovado a proteção concedida a fugitivos.

A presença de Eichmann e Mengele tornou-se uma espécie de atalho narrativo: sempre que surge uma controvérsia racial, o passado nazista é retirado da estante e apresentado como prova de uma suposta continuidade moral entre governos, torcedores e cidadãos separados por várias gerações. O raciocínio é sedutor, mas defeituoso. Responsabilidade histórica pertence a instituições, autoridades e indivíduos identificáveis. Quando essa responsabilidade é transmitida automaticamente aos descendentes ou a toda uma nacionalidade, o combate ao preconceito começa a reproduzir a mesma lógica de culpa coletiva que deveria rejeitar.

Reprodução X

O futebol amplifica tudo porque é o principal palco mundial da identidade argentina. A seleção representa mais do que uma equipe: carrega Maradona, Messi, as Malvinas, as crises econômicas, as ruas de Buenos Aires e o orgulho de um povo que transformou a bola em linguagem nacional. Por isso, quando jogadores ou torcedores praticam atos discriminatórios, o impacto ultrapassa o campo. As denúncias devem ser investigadas e os responsáveis, punidos. Paixão, rivalidade e comemoração não são licença para racismo. A própria Fifa mantém políticas e procedimentos contra manifestações discriminatórias no futebol.

Mas existe uma fronteira que não deveria ser atravessada. Um cântico ofensivo não representa todos os jogadores; um grupo de torcedores não representa todos os clubes; e nenhum estádio pode falar em nome de um país inteiro. Nas redes sociais, entretanto, essa fronteira desaparece. Um vídeo de segundos é reproduzido milhões de vezes, recebe uma legenda indignada e passa a confirmar aquilo em que cada grupo já desejava acreditar.

A denúncia de um ato concreto transforma-se rapidamente numa campanha de desqualificação nacional.




Também é legítimo investigar se governos, organizações, movimentos ideológicos, empresas de comunicação ou interesses estrangeiros exploram essas controvérsias para disputar influência cultural. Mas uma ação coordenada ou financiada só pode ser apresentada como fato quando houver documentos, contratos, valores, responsáveis e mecanismos comprováveis.

A crítica jornalística mais poderosa não depende de imaginar uma conspiração universal: basta demonstrar quando casos são retirados do contexto, quando a responsabilidade individual vira culpa coletiva e quando comportamentos semelhantes recebem tratamentos diferentes conforme o país ou o grupo político envolvido.

A Argentina possui racismo, xenofobia, páginas autoritárias e episódios que envergonham sua própria história. Também possui uma sociedade construída por sucessivas migrações, marcada por grande diversidade cultural e capaz de produzir movimentos de resistência ao autoritarismo. Essas duas realidades podem coexistir. Defender a Argentina não exige esconder Eichmann, Mengele, os nacionalistas radicais ou os cânticos do futebol. Exige apenas recusar que esses fatos sejam usados para determinar o caráter moral de cada argentino.

Feito em IA – Montagem TVS1

No próximo jogo, as arquibancadas voltarão a se encher de bandeiras celestes e brancas. Messi ou seus sucessores voltarão a ser observados por milhões de pessoas, e qualquer provocação poderá reabrir a mesma discussão.

Talvez o maior desafio argentino não seja provar que o preconceito nunca existiu, mas impedir que sua história inteira seja reduzida a ele. Porque um crime tem autor, um cântico tem responsáveis e um regime tem cúmplices.







Sobre Mathias Jaimes

Mathias Ariel Jaimes ( DRT 5674 Ba ) , é CEO do site #TVServidor e sócio-proprietário da agência de comunicação interativa #TVS1 . Formado em publicidade na Argentina. Estudou artes plásticas na Universidade Federal da Bahia. MBA em marketing e comunicação estratégica na Uninassau. Aluno do professor Olavo de Carvalho, Curso Online de Filosofia, desde 2015.

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