
Uma declaração feita ao vivo na CNN Brasil colocou o PT da Bahia no centro da crise que sacode o Supremo Tribunal Federal e o governo Lula. Ao comentar o silêncio do presidente diante das revelações envolvendo o Banco Master, o jornalista William Waack afirmou que “um pedaço do Supremo” teria enviado a Lula, por intermédio de seu marqueteiro, um recado explosivo: “Nem pense em se afastar do STF, um pedação do PT da Bahia está na nossa mão e você governa porque o STF ajuda”.
Waack não revelou qual integrante do Supremo teria enviado a mensagem nem identificou o marqueteiro que recebeu ou transmitiu o recado. Também não apresentou documentos que comprovassem a conversa.
A afirmação deve, portanto, ser tratada como informação de bastidor atribuída ao jornalista e ainda sem confirmação independente.
O mistério direciona as atenções para Sidônio Palmeira. Atual ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social, o baiano de Vitória da Conquista é um dos conselheiros mais próximos de Lula e comandou o marketing da campanha presidencial de 2022.
Sidônio também participou das campanhas de Jaques Wagner ao governo da Bahia em 2006 e 2010 e das campanhas de Rui Costa em 2014 e 2018.
Waack não citou Sidônio nominalmente e não existe confirmação de que ele tenha recebido qualquer mensagem do STF. Sua proximidade com Lula e sua ligação histórica com Wagner e Rui, entretanto, tornam inevitável a pergunta: Sidônio Palmeira foi o marqueteiro mencionado pelo jornalista? Se a resposta for positiva, o recado teria passado por um ministro situado exatamente no ponto de encontro entre o Planalto, a campanha presidencial e o núcleo baiano do PT.
A ligação com o Banco Master passa pelo Credcesta, produto que nasceu como benefício dos servidores estaduais e foi transformado posteriormente em uma importante operação financeira. A privatização da Ebal foi autorizada no fim do governo Jaques Wagner e concluída em 2018, durante a gestão de Rui Costa, quando Wagner comandava a Secretaria de Desenvolvimento Econômico envolvida no processo.
A NGV Empreendimentos e Participações arrematou por R$ 15 milhões o controle da Ebal, 49 lojas da Cesta do Povo e a operação do Credcesta. Nas tentativas anteriores, o preço mínimo havia sido de R$ 81 milhões. O operador privado ainda recebeu exclusividade por 15 anos, acesso à folha do funcionalismo e margem própria para comprometer até 30% do salário líquido dos servidores.
Apenas 16 dias depois do leilão, Rui Costa assinou dois decretos que alteraram as regras e permitiram ao Credcesta oferecer saques em dinheiro. O antigo cartão usado para comprar alimentos passou a funcionar também como produto de crédito. Posteriormente, a operação chegou ao Banco Máxima, que se transformaria no Banco Master de Daniel Vorcaro, e alcançou 24 unidades da Federação.
Dados contábeis citados pelo Poder360 indicam que o Master obteve R$ 2,4 bilhões entre 2022 e 2024 com a comercialização das carteiras do Credcesta. Enquanto o negócio movimentava bilhões, contratos levados à Justiça mostravam juros próximos de 5% ao mês, diante de uma média entre 1,37% e 1,59% no consignado destinado a servidores públicos.
Em 2022, outro decreto de Rui Costa restringiu a portabilidade de determinadas operações. Segundo o levantamento, a mudança deixou dívidas do Credcesta fora do procedimento que permitiria ao servidor transferi-las para bancos com juros menores. A Associação dos Funcionários Públicos do Estado da Bahia apresentou à Justiça contracheques com comprometimento de 76%, 92% e até 95% da renda. Ainda não existe, porém, decisão definitiva que considere ilegal todo o modelo.
O caso alcançou diretamente o núcleo político de Wagner com a Operação Compliance Zero. Decisão do ministro André Mendonça registra que a Polícia Federal identificou movimentações financeiras e planilhas envolvendo pessoas ligadas à família do senador. Uma transferência de R$ 3,5 milhões feita pela PKL One Participações à BN Financeira entrou na investigação. Planilhas também fariam referência a mais de R$ 2,34 milhões destinados a uma pessoa identificada como “Dudu”, que os investigadores associam ao enteado de Wagner.
Os elementos ainda estão sob investigação e não representam condenação. Jaques Wagner nega ter recebido propina e afirma que as irregularidades do Master não possuem relação com o PT.
O senador reconhece que conhecia Augusto Lima e que participou politicamente da venda, mas sustenta que o Banco Master entrou posteriormente na operação. A defesa de Lima também declara que o empresário sempre atuou dentro da lei.
Foi o governo de Wagner que autorizou a privatização da Ebal. Foi durante a gestão de Rui Costa que o Credcesta entrou no pacote vendido por R$ 15 milhões, ganhou novas possibilidades comerciais e teve sua portabilidade restringida. Por isso, a afirmação de que “um pedaço do PT da Bahia está na nossa mão” explodiu diretamente no colo dos dois petistas.
Caso o recado realmente tenha existido, uma ala do Supremo teria sugerido que a vulnerabilidade do PT baiano poderia ser usada para impedir Lula de se afastar da Corte. Sidônio precisa esclarecer se recebeu alguma mensagem de integrantes do STF. Lula deve dizer se tomou conhecimento da advertência.
O Supremo, Wagner e Rui também precisam responder o que sabem sobre o assunto.
Não existe prova pública de que Sidônio tenha recebido o recado ou de que ministros tenham usado a situação do PT baiano para pressionar o presidente.
A gravidade do relato feito por Waack, entretanto, exige uma resposta objetiva: quem enviou a mensagem, quem a recebeu e qual “pedaço do PT da Bahia” estaria nas mãos do Supremo?
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