
Um movimento ocorrido nos bastidores do Supremo Tribunal Federal acendeu o alerta do ministro André Mendonça e levou à adoção de uma medida incomum contra o senador Jaques Wagner (PT-BA): o acompanhamento, durante dez dias, dos sinais de localização emitidos por seus celulares. Segundo decisão tornada pública nesta quinta-feira (30), um dos investigados procurou o gabinete do ministro no mesmo dia em que a Polícia Federal apresentou pedidos sigilosos relacionados à nova fase da Operação Compliance Zero… inclusive antes da distribuição de parte das representações.
Para Mendonça, a coincidência agravou o risco de que informações reservadas da investigação tivessem vazado.
A autorização permitiu que a PF identificasse, por meio das antenas das operadoras, a localização aproximada dos aparelhos, os deslocamentos dos alvos e possíveis encontros ocorridos antes da operação deflagrada em 18 de junho. O objetivo era realizar uma vigilância silenciosa, sem abordagens presenciais que pudessem alertar os investigados. Na decisão, Mendonça apontou que diligências ostensivas poderiam provocar troca de celulares, destruição de provas digitais, ocultação de documentos, fuga ou combinação de versões.
A medida não significou acesso automático ao conteúdo de conversas e também não representa uma declaração antecipada de culpa.
O monitoramento foi autorizado no âmbito da investigação que apura uma possível relação entre Wagner e gestores ligados ao Banco Master. Segundo a Polícia Federal, existem indícios de que o senador teria atuado politicamente em favor de interesses da instituição financeira em troca de supostas vantagens indevidas. Entre os elementos investigados estão um apartamento de aproximadamente R$ 2,5 milhões em Salvador, pagamentos destinados a uma empresa ligada ao núcleo familiar do parlamentar, viagens em aeronaves privadas e outros benefícios mencionados nos documentos do caso.
A nona fase da Compliance Zero foi autorizada pelo STF e cumprida em São Paulo, na Bahia e no Distrito Federal.
A pressão política aumentou após outro relatório da PF registrar uma conversa em que Daniel Vorcaro, controlador do Master, teria citado Jaques Wagner, Rui Costa e o ministro Alexandre Silveira entre os nomes do governo favoráveis à tentativa de venda do banco ao BRB. Os investigadores analisam se Wagner teria atuado como interlocutor político em uma negociação sujeita à avaliação dos órgãos reguladores.
O senador nega ter recebido benefícios, afirma que sua atuação parlamentar contrariou interesses do Master e sustenta que não é réu nem foi denunciado pelos fatos. Rui Costa, Alexandre Silveira e os demais mencionados devem ter suas manifestações incorporadas à reportagem.
As suspeitas permanecem sob investigação e ainda não foram confirmadas por condenação judicial.
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