
O vice-prefeito Bruno Reis (PMDB), eleito com 74% dos votos, vive um momento marcante na história da sua carreira política ao ocupar o cargo ao lado do prefeito ACM Neto, com pretensões de comandar a cidad, caso o atual prefeito, ACM Neto, deixe a prefeitura para sair candidato ao governo do estado em 2018. Durante a definição da escolha para vice, sobre os rumores de que seria ou não indicado para a função, Bruno Reis era apontado como o preferido de Neto para disputar o cargo com o secretário de Mobilidade Urbana (Semob), Fábio Mota, para está ao lado do democrata como candidato a vice durante as eleições municipais.
Na possibilidade de ACM Neto disputar o governo do Estado em 2018 para assumir como titular, Bruno disse que isso está fora de cogitação. “Não há como pensar nisso se nós não atravessarmos bem 2017, se a gente não chegar bem em 2018, fazendo as obras que a gente quer entregar para a cidade, como o Hospital Municipal, o BRT, a recuperação dos outros trechos da orla, avançando ainda mais nos programas sociais, como o Morar Melhor e o Primeiro Passo. O nosso foco, pode ter certeza, é fazer um grande trabalho em 2017 e 2018. E aí depois é a cidade que vai decidir, é o estado, é o momento político do país… São tantos fatores que eu confesso a você que… Isso está mais na cabeça da imprensa e dos políticos do que na cabeça da população”, reforça.
Bruno Reis já possui uma trajetória na prefeitura que consolidou com a sua eleição de vice. Ele trabalha já há quase 17 anos com o prefeito ACM Neto, de quem é amigo pessoal. Mesmo antes da posse, que acontece em 1º de janeiro (a diplomação foi no último dia 15), Bruno já despachava na prefeitura, onde atuou em um gabinete ao lado de ACM Neto. Os vices costumavam atuar em um prédio próximo ao palácio. “A Secretaria de Relações Institucionais funcionava aqui, e eu estou assumindo essas atribuições. Com o vice ao lado do prefeito, um ajuda o outro para estar cobrando os secretários, delegando as atribuições”, considera.
Em reunião com o prefeito ACM Neto e secretários nos últimos meses para definir a reforma administrativa da prefeitura, Bruno se destacava na Assembleia Legislativa da Bahia (Alba), para onde se elegeu em segundo mandato como deputado estadual em 2014. Diz que irá sentir saudades do “ambiente saudável” da casa, onde fez boas amizades. Lá também ganhou habilidade política, com frequentes discursos na tribuna no papel de oposição aos governos do PT com alguns de seus gestos e impostações de voz que são, com certeza, sua marca registrada durante os tempos de parlamento
Agitado entre uma reunião e outra e entre um compromisso e outro, ACM Neto descreveu sobre que tipo de vice espera de Bruno Reis. Deseja, naturalmente, não se surpreender com o mesmo comportamento de Célia Sacramento, antecessora de Bruno, que, ao ser preterida para o cargo, deixou a aliança com Neto e o acusou de superfaturar obras. “Espero que ele tenha a mesma lealdade que teve comigo ao longo de toda a nossa trajetória conjunta. É alguém em quem eu tenho confiança pessoal e também profissional, pela sua capacidade de trabalho. Ele mostrou que é um cara de muito valor. Conquistou seu espaço com esforço, com suor e com seriedade”, define ACM Neto.
Pernambucano de nascimento, Bruno Reis, 39 anos, vivia com a família em Juazeiro. Bruno tinha 5 anos quando se mudou para Salvador. Passou um tempo grande querendo voltar. Aos 9, sofreu outra perda, ainda mais dura, com a morte da mãe. Lembra que ainda muito pequeno, com 10, 11 anos, era o responsável por fazer o mercado de casa. Também era ele quem pagava as contas, utilizando o cartão de crédito da avó, professora aposentada, que passou a tomar conta dele e dos irmãos.
A partir dos 15 anos de idade, a responsabilidade já era de um homem, quando ficou órfão também de pai. Ele tiniha sobre si a missão de fazer-se na vida. Seu começo na política é parecido com o de outros tantos que não a herdam de berço – na sua genealogia, tem apenas um bisavô que foi prefeito de Xique-Xique. Participou de grêmios na escola e do Diretório Acadêmico da Faculdade de Direito da Universidade Católica do Salvador (Ucsal). Estava no segundo semestre da faculdade quando começou a estagiar na Câmara de Vereadores.
Seu grande início na política desponta mesmo a partir de abril de 2000, quando conheceu ACM Neto durante um evento do PFL Jovem para a campanha de reeleição do então prefeito Antônio Imbassahy. Em meio a outros 50 jovens, Neto – que era assessor da secretaria estadual de Educação e candidato a deputado federal – escolheu Bruno para uma conversa e um convite. “Ele pediu que eu contasse a minha vida do dia que nasci até aquela data. Depois, me chamou para ser seu assessor”. Neto lembra que viu nele uma habilidade “incomum” para um jovem da sua idade e sem tradição política na família. “Era, portanto, uma coisa de dom que ele tinha. E acho que eu tenho essa capacidade de descobrir talentos e ajudar a formar quadros”, pontua Neto.
Bruno terminou a faculdade, mas nunca trabalhou como advogado. Por dez anos, dividiu-se entre Brasília e Salvador, como assessor de Neto na Câmara dos Deputados. Depois, com o apoio de Neto, candidatou-se a deputado estadual, período que considera o “grande teste da sua vida”, por enfrentar a oposição nas três esferas de poder. Bruno elegeu-se, aos 33 anos. Pela primeira vez, saía dos bastidores para a linha de frente.
Para mostrar o resultado da sua atuação legislativa, durante seus dois mandatos na Alba, apresentou 36 moções de congratulações, três moções de pesar, dois títulos de cidadão baiano a políticos e sete projetos de lei (PLs), dos quais três eram declarações de utilidade pública e quatro dispunham sobre mudanças mais efetivas: a regulamentação da oferta de “couvert” em bares e restaurantes; a forma de entrega de produtos e serviços; a instituição de uma política estadual de incentivo ao cultivo e manejo de bambu; e o parcelamento do pagamento do Imposto sobre a Propriedade de Veículo Automotor (IPVA) na Bahia.
Dentre os PLs – excluindo-se as declarações de utilidade pública –, apenas um foi sancionado, o que obriga os fornecedores a informarem a data e o turno da entrega de mercadorias. Por dois anos, em 2011 e 2012, foi eleito por jornalistas que acompanham a Alba como Destaque Parlamentar, o que Bruno atribui à defesa pelos direitos do consumidor e à “força do trabalho”. “Acordo cedo e durmo tarde. Trabalho de segunda a segunda. É a prioridade da minha vida”, conta Reis.
Em 2013, o deputado desfiliou-se do Partido Republicano Progressista (PRP) e passou a integrar o Partido do Movimento Democrático do Brasil (PMDB). A possibilidade era de migração para o Democratas (DEM), partido de ACM Neto, mas não foi bem assim.
Bruno conta que buscava um partido onde pudesse alçar “maiores voos” e que, em uma conversa, Neto o deixou livre para escolher entre os partidos que compunham a base aliada. “Falei: prefeito, o senhor tem seus sonhos, eu tenho os meus. Pela nossa intimidade, a gente conversa pouco e se entende… Ele respondeu: ‘Eu sei quais são seus sonhos, não precisa me dizer. Então, acho que você não deve vir para o DEM’. Pronto. Quando ele me disse assim…”, ri. Bruno diz que por isso aceitou o convite de Geddel Vieira Lima, a quem ainda chama de ministro, para ser o nome “forte” do partido em Salvador. Um ano e meio depois, Bruno afastou-se da Assembleia para assumir a Secretaria de Promoção Social, Esporte e Combate à Pobreza (Semps), sua estreia no Executivo.
Essa articulação serviu como oportunidade para Bruno assumir o cargo de vice-prefeito. A proposta para ser auxiliar e secretario do prefeito foi como um trampolim para que Bruno desse um salto na carreira política e administrativa, o que deixou Neto surpreso. “Ele sempre priorizou a área social e me falou que precisava de alguém que se dedicasse, para fazer as coisas acontecerem”. Mestre em desenvolvimento e gestão social pela Universidade Federal da Bahia (Ufba), Bruno viu a oportunidade de colocar os conhecimentos teóricos em prática.
Com menos de um mês no cargo, viveu seu maior desafio, que o fez ganhar a confiança de Neto. As chuvas de abril e maio de 2015 deixaram 20 mortos em Salvador e centenas de desabrigados. Ele conta com orgulho as decisões tomadas na ocasião, como o aluguel social por tempo indeterminado e o auxílio-emergência, para que as famílias pudessem readquirir bens perdidos nas enchentes. A partir daí, lista seus feitos como se os tivesse decorado e receasse esquecer algum: Morar Melhor, Primeiro Passo, Cuidar (que chama de “SAC dos pobres”), criação de abrigos para pessoas em situação de rua e aumento no cadastro dos beneficiários do Bolsa Família.
Após um ano e três meses, Bruno deixou a Semps com outros secretários, como Luiz Carreira (ex-Casa Civil), Sílvio Pinheiro (ex-secretário de Urbanismo) e Guilherme Bellintani (ex-secretário da Educação), para candidatar-se internamente ao cargo de vice. A definição do nome para integrar a chapa durou meses. Durante este momento, Bruno admite que “nunca escondeu de ninguém o desejo de ser prefeito da cidade que me deu todas as oportunidades na vida. Eu quero ir longe na política”. Diz que passou semanas sem dormir direito, agoniado com a indefinição. Guarda o dia e a hora em que a questão foi fechada: 4 de agosto, às 21h, véspera da convenção partidária. Geddel foi apoiador da indicação. “O fato de eu ser do PMDB foi decisivo. Tantos outros nomes eram tão amigos quanto eu, tinham também seus valores, eram qualificadíssimos. Pesou também o apoio dos irmãos Vieira Lima. E o PMDB é o maior partido do Brasil, tem maior tempo de televisão… Eu irei ser grato e reconhecer isso por toda minha vida”, observa.9
Sobre o caso emblemático que envolveu o Geddel Vieira Lima, Bruno não titubeia quando o assunto é o escândalo que envolveu o ex-ministro e o La Vue, na Ladeira da Barra – dono de um apartamento no prédio, Geddel, então ministro da Secretaria de Governo, trabalhou para que a obra no edifício fosse liberada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), episódio que o levou a pedir demissão. “Lamento muito. Foi uma perda grande para a Bahia, em especial para Salvador. Geddel estava ajudando muito a cidade. Em apenas três meses, destravou nosso BRT, que nós já estávamos tentando há três anos. Também estava viabilizando recursos para a área da saúde. Digo a vocês que se não fosse o momento político que vive o país, o fato em que ele se envolveu jamais o levaria a pedir demissão”, defende.
Para Bruno, “o fato não foi tão grave assim”. “Eu me pergunto: você vai comprar um empreendimento que tem a licença da Sucom, do Iphan local, que, ao meu ver, tem muito mais condições de dar um parecer, porque está aqui ao lado, do que o Iphan nacional. E aí depois, por uma questão de… Por contrariar interesses de vizinhança, o Iphan nacional faz um parecer embargando a obra. Havia esse conflito. O que ele queria é que outro órgão pudesse decidir”, nota.
Com seu nome divulgado nas peças publicitárias ao lado de ACM Neto, Bruno dedicou-se com afinco à campanha eleitoral. Reservou especial atenção ao subúrbio ferroviário, como na disputa anterior, de 2012, quando foi ao local após o 1º turno para enfrentar o boatos de que, se eleito, Neto acabaria com o Bolsa Família.
Quando se deparou com o episódio protagonizado pela então candidata a prefeita Alice Portugal, que durante campanha eleitoral publicou em suas redes sociais um texto que dizia que Bruno era “suspeito de ter participado de esquemas de fraude em obras e licitações públicas descobertos na Operação Navalha” e de ter “desacatado guardas de trânsito quando foi parado em uma blitz”, Bruno diz que está processando a deputada federal pela postagem. À Muito, Alice contou que não recebeu qualquer notificação. “Todas as minhas afirmativas na recente campanha foram estritamente atentes ao debate político sobre a cidade”. A deputada considera “pouco provável” a hipótese de Bruno vir a assumir a prefeitura. “O DEM não tem musculatura para uma eleição estadual e ele [ACM Neto] não vai arriscar entregar a prefeitura ao PMDB de Geddel”, disse a comunista na ocasião da disputa eleitoral.
Pai de dois filhos, um menino de 9 anos e uma menina de 7, Bruno Reis declarou que o dia da eleição que o consagrou vice-prefeito foi o “mais feliz” da sua vida. As crianças moram com a mãe. Ele gosta de levá-los ao cinema e ao kart. No tempo curto que lhe sobra para divertimentos, almoça com os amigos e costuma passear na praia de Barra Grande. Conta que tem um relacionamento com a sua namorada e diz que as questões familiares e amorosas fazem parte também de suas conversas com Neto. “Somos conselheiros para além da vida política”. Como ponto irreconciliável, só mesmo o time do coração. O prefeito é Bahia, o vice é Vitória. “Até nisso a chapa está completa”, finaliza Reis.
Foto: TV Servidor
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