Marcelo Casal Jr / Agência Brasil
A popularização das inteligências artificiais, como o ChatGPT, tem levado muitas pessoas a desabafarem com robôs ao invés de procurarem ajuda profissional. A prática parece inofensiva e até útil em momentos de solidão, mas pode ter consequências graves para a saúde mental.
O psicólogo Pablo Sauce, da Holiste Psiquiatria, faz um alerta sobre os limites dessa relação: “Humanizar máquinas pode parecer uma forma de acolhimento, mas quanto mais projetamos sentimentos em objetos inanimados, mais nos desumanizamos”.
Segundo o especialista, a tendência de buscar conforto em ferramentas de IA se relaciona com um mecanismo psíquico identificado na antropologia como “animismo”: a atribuição de alma a objetos inanimados. Para Sauce, esse comportamento reflete uma tentativa de terceirizar decisões sobre a própria vida, uma forma de afastar-se de tudo que cause perturbação emocional. “O desejo de eliminar a dor pode levar à recusa das paixões, mas sem pathos, não há vida”, afirma.
Apesar de os sistemas de IA estarem cada vez mais sofisticados, inclusive em respostas sobre saúde mental, há riscos significativos em confiar totalmente nessas ferramentas, especialmente em quadros de ansiedade, depressão e ideação suicida. “Já houve casos em que algoritmos sugeriram soluções letais como ‘respostas pragmáticas’. Hoje, as plataformas estão mais seguras, mas ainda carecem da sensibilidade e da escuta ativa que só um terapeuta humano pode oferecer”, explica.
Outro perigo está na estandardização dos sofrimentos. Segundo Sauce, ao aceitar respostas geradas por inteligência artificial, o sujeito pode renunciar ao que tem de mais íntimo e singular. “A IA oferece conselhos baseados em dados, não em escuta subjetiva. Isso tende a reduzir a complexidade de cada indivíduo a padrões genéricos, o que é exatamente o oposto do que a psicoterapia busca”.
Além disso, o psicólogo destaca que o crescimento desse fenômeno pode intensificar o isolamento social, como já ocorre em países com alto grau de digitalização. “No Japão, por exemplo, vemos o caso dos hikikomori, jovens que se trancam em seus quartos por meses ou anos. É um alerta para o que pode acontecer se continuarmos trocando vínculos reais por interações digitais”, afirma.
Para quem se sente confortável desabafando com uma IA, mas ainda não buscou ajuda profissional, Sauce deixa um recado: “Se algum dia essa parceria artificial deixar de fazer sentido, lembre-se de que há profissionais prontos para estabelecer uma parceria real. O vínculo humano ainda carrega algo de insubstituível, algo que nenhuma tecnologia, por mais avançada que seja, consegue decifrar.”
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