
O jornalista Miguel Henrique Otero é uma das poucas vozes que se levantam contra o regime de Nicolás Maduro, na Venezuela. E isso tem um preço: o presidente-editor e dono do jornal mais importante do país, o El Nacional, está exilado há três anos. A Espanha lhe concedeu a nacionalidade espanhola como medida de proteção e para que possa ter um passaporte e viajar pelo mundo para defendendo a liberdade de expressão, a democracia e os direitos humanos na Venezuela. Otero recebeu inúmeros prêmios e reconhecimentos internacionais por dedicar a sua vida à luta pela liberdade. É afilhado do grande poeta chileno e Prêmio Nobel de literatura, Pablo Neruda. Em entrevista à Tribuna durante alguns dias de descanso em Salvador, ele revela que o território vizinho se converteu em um “narcoestado”, onde o crime predomina nos mais altos escalões do governo. “A Venezuela hoje é uma catástrofe como país”, critica. Segundo ele, a corrupção tomou conta do país e é praticamente impossível investigá-la, uma vez que o judiciário local está sob a tutela dos chavistas. “Na Venezuela, a corrupção da Odebrecht é pior que a de todos os outros países”, acena. Otero, no entanto, não perde a esperança e levanta opções para o possível fim do regime ditatorial populista. Ele também elogia o Brasil na condução dos processos contra o ex-presidente Lula. “O caso de Lula representa um presidente corrupto, de um governo populista que é condenado por corrupção em um país onde as instituições funcionam”, analisa.
Confira trechos da entrevista que o TV Servidor repercute a seguir:
O senhor é um dos maiores críticos e opositores do presidente Nicolás Maduro. Qual avaliação que o senhor faz do país hoje?
Miguel Henrique Otero – A Venezuela hoje é uma catástrofe como país, porque nós somente tivemos resultados negativos de um governo populista, que destruiu a indústria produtiva e se converteu em um narcoestado. A Venezuela é um país onde o narcotráfico está sendo dirigido pelos altos funcionários do governo. Vários ministros e familiares diretos de Maduro. É o único narcoestado que há no mundo. Não há outro no mundo. Isso realmente dá característica ao regime que não existe em nenhuma outra ditadura ou governo populista de outra parte. É algo que afeta o país. Mais de 3 milhões de venezuelanos deixaram o país. Há um número imenso de pessoas que foram para o Brasil, Colômbia, Peru, Equador, Europa e Estados Unidos. Então, não é somente uma ditadura que viola os direitos humanos, que tem presos políticos… É um país que tem narcotráfico e que está expulsando pessoas para outros países.
A Venezuela foi uma das grandes economias da América do Sul, tendo o petróleo sempre como seu carro-chefe. Como foi possível chegar à situação caótica que o país vive hoje?
Otero – Bom, não é fácil de explicar, porque a Venezuela segue tendo as maiores reservas de petróleo do mundo. O governo tem reduzido as produções petrolíferas a níveis ínfimos. A produção nacional em outros setores, como a agricultura, praticamente desapareceu. Então, é um país que está em uma situação similar à de um território em guerra. Não existe produção. Estamos passando por todas as dificuldades de um país em guerra. Agora, como se chegou a isso? Bem, o modelo é populista, onde Hugo Chávez desenhou um mecanismo para que o aumento progressivo dos preços do petróleo seja repartido através de uma coisa chamada “Misiones” e, simultaneamente, desmantelando o aparato produtivo. O preço do petróleo baixou, sem consumo interno, e hoje em dia vemos as consequências. Agora, que outro regime no mundo fez uma coisa assim? Nenhum. Não existe precedente. É uma ditadura populista. Na América Latina já houve muitos regimes e ditaduras populistas, mas nada assim. A característica do regime Chávez-Maduro é a destruição.
Quando o senhor começou com seu jornal a criticar e a se opor às medidas do governo Chávez? Que tipo de reações o senhor enfrentou?
Otero – Chávez se apresentava como um candidato sem ataduras, cujo modelo de país era capitalismo humanista. Nunca entrou no seu discurso o comunismo, o socialismo e nem o estatismo. Nunca. Quando chegou ao poder, com alto índice de aprovação, começou a mudar. Começou a criar mecanismos para permanecer no poder infinitamente. Fez a modificação da Constituição para eleições por tempo indeterminado e um regime autoritário que o permitiu seguir no poder para sempre. Claro que os inimigos principais naquele momento foram os veículos de comunicação. Ele começou a atacar a imprensa. Agiu diferente ao discurso que pregou antes de assumir o poder. Ele não prometeu atacar os meios de comunicação. Hoje em dia, as rádios e televisões estão absolutamente controladas por uma lei que eles fizeram. 40% da população, agora, só têm acesso a rádio e televisão oficial do governo. 60% têm acesso as rádios e televisões privadas, mas censuradas. Os jornais impressos foram perdendo espaço por falta de papel, até que a maioria saiu de circulação e foram para plataformas digitais. Outros jornalões foram comprados pelo governo, com dinheiro público. O que existe hoje na Venezuela hoje é o nosso jornal, muitos portais, redes sociais e alguns jornais de interior que ainda circulam.
O senhor chegou a ser ameaçado ou sofreu algum tipo de atentado? Quando o senhor deixou o país e como faz para manter vivo o seu jornal numa economia tão debilitada?
Otero – Há três anos, nós publicamos uma notícia que já havia sido publicada pelo jornal ABC, da Espanha. Era uma investigação por narcotráfico, aberta por um fiscal federal de Nova Iorque, envolvendo o líder chavista Diosdado Cabello. Essa notícia foi republicada por 80 países, incluindo o Brasil. Porém, como nós republicamos, Diosdado Cabello entrou com uma ação de injúria e difamação contra a direção executiva e o conselho editorial do jornal. Eu estava fora do país naquele momento e continuei fora. Sabe o que se passa com os juízes na Venezuela? Os tribunais são um apêndice do governo. Então, quando eles querem criminalizar alguém, abrem um processo e decretam medidas cautelares. As medidas cautelares permitem que se mantenham em prisão durante a tramitação do processo, sem nenhuma sentença. Os processos não avançam e têm pessoas presas há mais de 10 anos por medidas cautelares. Então, o risco de eu voltar para a Venezuela era grande. Tenho medidas cautelares e ainda há a probabilidade que me decretem outros procedimentos penais. Então, permaneço vivendo há três anos no exterior. Continuo sendo o diretor do jornal. Seguimos publicando tudo, não nos autocensuramos, porém, a questão do papel é bastante complicada. Treze jornais do continente nos mandavam papel, inclusive “O Globo”, do Brasil. Reduzimos a circulação ao mínimo. Chegamos a 1/8 do que nós circulávamos antes desse problema. Somos o único jornal independente que ainda circula em papel, com uma edição reduzida, porém seguimos firmes.
Fonte: Tribuna da Bahia On Line
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