
O que o Pix, o etanol e decisões tomadas por tribunais brasileiros têm a ver com o emprego de quem trabalha em uma fábrica de calçados, roupas ou máquinas? Mais do que parece. O governo dos Estados Unidos confirmou uma tarifa adicional de 25% sobre parte dos produtos brasileiros a partir de 22 de julho. A medida nasceu de uma investigação comercial aberta em julho de 2025 e envolve acusações de favorecimento ao Pix, barreiras ao etanol americano, problemas na proteção de patentes, combate à corrupção, desmatamento ilegal e ordens judiciais contra empresas de tecnologia dos Estados Unidos. Café, carne, suco de laranja, peças de aviões e outros itens estratégicos foram incluídos entre cerca de 2.100 produtos poupados.
A decisão chega no pior momento possível para uma relação já contaminada pela disputa política entre Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump. Na véspera do anúncio, Lula chegou a ironizar o presidente americano ao comparar próteses oferecidas pelo SUS com a “dentadura de Trump”. A provocação não aparece oficialmente como causa da tarifa, que decorre de uma investigação técnica de um ano, mas reforça a imagem de uma diplomacia conduzida mais para alimentar o confronto político interno do que para abrir portas ao setor produtivo.
Enquanto os presidentes trocam críticas, empresas brasileiras de máquinas, calçados, vestuário, papel, açúcar e equipamentos elétricos enfrentam o risco de perder espaço no maior mercado consumidor do mundo.
O perigo agora é transformar uma crise comercial em uma guerra de retaliações. O governo Lula anunciou que pretende acionar a Lei da Reciprocidade, mas uma resposta baseada apenas em novas tarifas pode encarecer insumos importados, reduzir a competitividade da indústria e transferir a conta para consumidores e trabalhadores. O próprio setor produtivo já alerta para queda na produção e possibilidade de cortes de vagas nas áreas mais dependentes dos Estados Unidos.
No fim, o discurso de soberania pode render palanque, mas soberania de verdade também significa proteger empresas, exportações e empregos… porque presidente algum perde o salário quando a diplomacia fracassa; quem perde é o brasileiro que produz.
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