
Na política, ausência diz muito. E, às vezes, grita. No primeiro grande debate televisionado da eleição para o Governo da Bahia, realizado pela Band neste domingo (9), Jerônimo Rodrigues estava no centro do confronto eleitoral. Jaques Wagner circulava como uma das principais figuras do grupo petista. Mas Rui Costa, candidato ao Senado e homem que governou a Bahia por oito anos, estava fora daquela fotografia. Oficialmente, isso pode não significar absolutamente nada.
Petistas ouvidos por esta coluna enxergam outra coisa: Rui estaria cada vez menos disposto a dividir seu futuro eleitoral com o desgaste de Wagner e com decisões partidárias que, segundo esses interlocutores, ele “não controla mais como gostaria”.
O primeiro motivo apontado é eleitoral: números ajudam a entender o desconforto. Rui Costa chega à campanha ao Senado numericamente mais forte que Jaques Wagner. No levantamento do Paraná Pesquisas, divulgado em 3 de agosto, Jaques Wagner lidera a rejeição entre todos os candidatos testados ao Senado, com 34,1%, enquanto Rui registra 23,1%.
O segundo motivo é mais explosivo porque toca numa ferida antiga do PT baiano: “Rui Costa não gosta de perder decisões dentro do próprio grupo”. O ex-governador acumula insatisfação com “escolhas feitas por Wagner”.

O caso mais simbólico aconteceu em Salvador. Em 2024, Rui preferia José Trindade para disputar a prefeitura, enquanto Jaques Wagner trabalhou pela candidatura de Geraldo Júnior.
A própria Folha de S.Paulo registrou à época que a escolha de Geraldo representou uma vitória de Wagner na disputa interna com Rui e que, depois da definição, Rui se afastou das articulações da sucessão municipal.
O resultado desta decisão foi que Bruno Reis massacrou a frente governista nas urnas e foi reeleito no primeiro turno com 78,67% dos votos válidos. Geraldo Júnior terminou com apenas 10,33% e ainda ficou atrás de Kleber Rosa, do PSOL, que alcançou 10,43%. Foi mais que uma derrota. Politicamente, foi uma humilhação para uma aliança que reuniu PT, MDB e boa parte da máquina governista na tentativa de tomar Salvador. E para Rui Costa ficou uma lembrança particularmente incômoda: numa das disputas internas em que sua posição foi derrotada, o grupo escolheu outro caminho e terminou atropelado pela realidade das urnas.
É justamente esse histórico que ajuda a entender por que a ausência de Rui na noite da Band chamou atenção. Segundo petistas ouvidos por esta coluna, existe dentro do ex-governador a convicção de que “seu peso político deveria ser maior nas decisões da campanha e do próprio PT”.
Esses interlocutores chegam a sustentar que Rui “considerava possuir condições eleitorais para voltar a disputar o Governo da Bahia”, embora publicamente ele tenha construído desde 2024 seu projeto para o Senado e hoje apoie a reeleição de Jerônimo.

O PT conseguiu governar a Bahia durante duas décadas preservando uma imagem de unidade que muitas vezes escondeu disputas duríssimas de poder. Wagner comandou. Rui sucedeu Wagner. Rui ajudou a eleger Jerônimo. Agora os três precisam dividir o mesmo palanque quando os interesses de cada um já não são necessariamente os mesmos. Jerônimo luta pela sobrevivência no governo. Wagner enfrenta uma rejeição eleitoral maior. Rui lidera a corrida ao Senado dentro do próprio grupo.
Talvez seja exatamente por isso que a cadeira vazia de Rui Costa tenha sido uma das imagens políticas mais interessantes de uma noite em que ele sequer precisou aparecer na televisão. Rui não precisa romper com Wagner. Não precisa atacar Jerônimo. Não precisa levantar a voz contra o PT. Para um político acostumado a mandar, basta começar a escolher cuidadosamente as fotografias em que deseja aparecer.
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