
A discussão sobre a regulação da saúde na Bahia ganhou um capítulo que beira o confronto entre o discurso oficial e a realidade relatada por famílias que dependem do SUS. Nesta terça-feira (25), o governador Jerônimo Rodrigues (PT) criticou o uso da expressão “fila da morte” pela oposição e afirmou não concordar com a forma como o problema vem sendo explorado. Dias antes, ele já havia atribuído parte da sobrecarga do sistema estadual à falta de estrutura oferecida pelas prefeituras.
Na segunda-feira (24), Jaques Wagner (PT) foi ainda mais longe na defesa do modelo e chamou a regulação de “fila da vida”, sustentando que o mecanismo garante acesso a cirurgias e outros procedimentos.
Os próprios números divulgados pelo Governo da Bahia, porém, mostram por que o assunto não pode ser resolvido apenas com uma disputa de palavras. Em 2025, foram solucionados 329.679 casos provenientes dos 417 municípios, dos quais 71,93% tiveram regulação em até 24 horas e 86,22% em até 72 horas. Isso significa que aproximadamente 45,4 mil solicitações não foram concluídas dentro das primeiras 72 horas. O dado representa melhora em relação a anos anteriores: em 2022, 81% eram atendidos nesse intervalo… e o governo informa ainda ter ampliado leitos e investimentos.
Mas a evolução estatística não elimina a pergunta central: o que acontece com o paciente grave que está justamente entre aqueles que ultrapassam três dias esperando?
E há histórias recentes que tornam essa pergunta impossível de tratar apenas como retórica eleitoral.
Em abril, familiares de Antonio Nascimento Santos relataram que o idoso morreu em Salvador após cerca de 12 dias aguardando transferência para uma unidade com suporte de UTI, apesar de existir decisão judicial determinando atendimento imediato.
Em agosto, o vereador José Carneiro relatou na Câmara de Feira de Santana o caso de um homem que teria permanecido cinco dias aguardando transferência após sofrer um infarto e morreu depois de conseguir vaga no Hospital Ana Nery.
São episódios relatados por familiares e agentes públicos e não autorizam afirmar que todas as mortes decorreram diretamente da regulação, mas mostram que existem casos concretos por trás de uma discussão que o governo tenta enquadrar também como exploração política da oposição.
A Central Estadual de Regulação continua sob responsabilidade do Estado, e o cidadão que espera por um leito não pode ser transformado em personagem de uma guerra de narrativas imposta pelo PT que está há 20 anos dizendo que irá solucionar o sistema de saúde pública.
Antes de tentar aposentar a expressão “fila da morte” ou rebatizá-la como “fila da vida”, o governo Jerônimo precisa convencer quem está na ponta com aquilo que realmente encerra qualquer discussão: vaga disponível, transferência rápida e atendimento antes que seja tarde demais.
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