Por que argentinos não aceitam perder para Inglaterra? Clássico começou antes das Malvinas

Para um argentino, perder da Inglaterra nunca representa apenas uma eliminação esportiva. É uma derrota que mexe com orgulho nacional, memória política e episódios transmitidos de geração em geração. A Guerra das Malvinas, travada em 1982 e encerrada com 649 militares argentinos mortos, aprofundou essa carga emocional, mas a rivalidade dentro do futebol havia começado 16 anos antes, na Copa do Mundo de 1966. Foi naquele torneio, disputado em território inglês, que um jogo marcado por arbitragem confusa, expulsão contestada e acusações pesadas transformou duas seleções distantes em inimigas íntimas.

Em 23 de julho de 1966, diante de 90.584 pessoas em Wembley, a Inglaterra derrotou a Argentina por 1 a 0 nas quartas de final, com gol de Geoff Hurst. Aos 35 minutos, o árbitro alemão Rudolf Kreitlein expulsou o capitão argentino Antonio Ubaldo Rattín por reclamação. O problema é que Kreitlein não falava espanhol, Rattín não entendia alemão e ainda não existiam cartões para comunicar advertências e expulsões.

O argentino se recusou a sair imediatamente, pediu um intérprete e permaneceu vários minutos no gramado. Para os ingleses, era indisciplina; para os argentinos, uma expulsão sem explicação e uma prova de que o Mundial estava armado para o país anfitrião.

Na saída, Rattín apertou a bandeira de escanteio que reproduzia a “Union Jack” e sentou por alguns instantes sobre o tapete vermelho reservado à família real. Relatos repetidos ao longo dos anos também atribuem ao jogador insultos contra o público, mas não há confirmação sólida de que ele tenha cuspido em torcedores.

O fato comprovado é que a confusão ajudou o árbitro inglês Ken Aston a imaginar um sistema universal inspirado nas cores dos semáforos: amarelo para advertência e vermelho para expulsão. Os cartões foram oficializados posteriormente e utilizados pela primeira vez em uma Copa no México, em 1970.

A temperatura subiu ainda mais depois da partida. Alf Ramsey, treinador da Inglaterra, entrou em campo e impediu que seus jogadores trocassem camisas com os argentinos, classificados por ele como “animais” durante uma entrevista. Na Argentina, o confronto passou a ser lembrado como “el robo del siglo”, o roubo do século.

A partir dali, a Inglaterra deixou de ser somente a seleção que havia eliminado a “Albiceleste” e passou a simbolizar, para muitos torcedores, arrogância, poder político e favorecimento esportivo.

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A Guerra das Malvinas tornou essa ferida ainda mais profunda. Quatro anos depois do conflito, Argentina e Inglaterra se encontraram nas quartas de final da Copa de 1986, no México. Houve confrontos entre grupos de torcedores nas ruas da Cidade do México e um ambiente carregado dentro do Estádio Azteca. Em campo, Diego Maradona decidiu tudo em apenas quatro minutos. Primeiro, marcou com a mão o gol que batizou como uma mistura entre “a cabeça de Maradona e a mão de Deus”. Depois, arrancou do próprio campo, percorreu a jogada em aproximadamente 11 segundos, driblou cinco adversários. incluindo o goleiro Peter Shilton, e fez o gol posteriormente eleito pela FIFA como o mais bonito do século nas Copas.

A Argentina venceu por 2 a 1 e acabaria campeã mundial.

Maradona sempre rejeitou a ideia de que aquela partida fosse uma guerra, mas admitiu que a vitória representou algo especial para um país ainda traumatizado pelas Malvinas. O primeiro gol foi ilegal… o segundo, uma obra de arte. Juntos, os dois lances condensaram características que os próprios argentinos enxergam em sua identidade futebolística: rebeldia, astúcia, talento e capacidade de enfrentar uma potência considerada superior. Para os ingleses, ficou a sensação de terem sido eliminados por uma trapaça. Para a Argentina, permaneceu a narrativa de uma revanche simbólica alcançada com a bola nos pés.




A rivalidade ganhou outro capítulo inesquecível em 1998, nas oitavas de final da Copa da França. O jogo terminou empatado por 2 a 2 após gols de Gabriel Batistuta, Alan Shearer, Michael Owen e Javier Zanetti. Logo no início do segundo tempo, Diego Simeone derrubou David Beckham e, ainda no chão, o inglês respondeu com um chute pelas costas da perna do argentino. Simeone exagerou a reação e Beckham foi expulso. Mesmo com dez jogadores, a Inglaterra resistiu até os pênaltis, mas perdeu por 4 a 3. O goleiro Carlos Roa defendeu as cobranças de Paul Ince e David Batty, enquanto Beckham virou alvo de uma campanha feroz da imprensa inglesa.

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Quatro anos depois, Beckham teve sua vingança. Na fase de grupos da Copa de 2002, ele cobrou o pênalti que deu à Inglaterra a vitória por 1 a 0. O resultado ajudou a eliminar uma Argentina que havia chegado ao torneio como uma das favoritas. Foi a primeira vitória inglesa sobre os argentinos em Copas desde 1966, mas não apagou 1986 nem encerrou o duelo psicológico iniciado em Wembley.

Antes do novo encontro de 2026, as duas seleções haviam se enfrentado 14 vezes, com seis vitórias inglesas, três argentinas e cinco empates. Em Copas do Mundo, foram cinco duelos: a Inglaterra ganhou em 1962, 1966 e 2002; a Argentina avançou em 1986 e 1998, sendo a última vitória decidida nos pênaltis após empate oficialmente registrado.

É uma quantidade pequena de partidas para tamanha rivalidade, mas quase todas deixaram expulsões, acusações, gols históricos ou traumas nacionais.

FIFA Gallery

É por isso que os argentinos não aceitam perder para a Inglaterra. Não significa que todos tratem o adversário como inimigo, nem que os jogadores atuais entrem em campo pensando em guerras antigas. Mas a camisa inglesa desperta lembranças que nenhuma outra seleção reúne ao mesmo tempo: a expulsão de Rattín, o insulto de Ramsey, as Malvinas, a mão de Maradona, o gol do século, a provocação de Simeone e a redenção de Beckham.

Contra a Inglaterra, a Argentina não joga somente pelo resultado. Joga também para proteger uma história na qual resistir ao poder britânico se transformou em parte do próprio orgulho nacional.




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Sobre Mathias Jaimes

Mathias Ariel Jaimes ( DRT 5674 Ba ) , é CEO do site #TVServidor e sócio-proprietário da agência de comunicação interativa #TVS1 . Formado em publicidade na Argentina. Estudou artes plásticas na Universidade Federal da Bahia. MBA em marketing e comunicação estratégica na Uninassau. Aluno do professor Olavo de Carvalho, Curso Online de Filosofia, desde 2015.

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