
Novos documentos da Polícia Federal detalham como o senador Jaques Wagner (PT-BA) teria atuado como ponte entre Augusto Ferreira Lima, então sócio de Daniel Vorcaro no Banco Master, e integrantes do governo federal.
Em um dos episódios mais “sensíveis”, Wagner sugeriu que uma reunião envolvendo Lima e Jorge Messias, advogado-geral da União, fosse realizada no próprio gabinete do parlamentar por considerá-lo um local mais “protegido e discreto”.
As mensagens analisadas pela PF são de abril de 2024. Em áudio enviado a Augusto Lima, Wagner afirmou ter acabado de conversar com Messias e passou a organizar horário e local para um possível encontro. O senador disse que o gabinete evitaria chamar atenção e chegou a sugerir que poderia encontrar o empresário na entrada do Senado para que ele subisse sem passar pelo procedimento normal de identificação.
O ponto exige uma ressalva importante. A Polícia Federal escreveu que as mensagens sugerem que Messias teria participado de um dos encontros, mas os registros divulgados não permitem confirmar essa presença de maneira independente.

Procurado pela CNN, Jorge Messias negou ter se encontrado com Augusto Lima no gabinete de Wagner e afirmou que não comentaria declarações de terceiros.
Os contatos não pararam naquele episódio. A investigação identificou reuniões e tratativas entre Wagner e Augusto Lima em Brasília ao longo de 2024. Em agosto daquele ano, pouco antes de um dos encontros, entrou em cena uma pauta de grande interesse do sistema financeiro: a PEC 65/2023, proposta que trata do regime jurídico e da autonomia do Banco Central.
Dentro da tramitação da PEC surgiu a Emenda nº 11, apresentada pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI) em 13 de agosto de 2024. A proposta pretendia alterar regras relacionadas à cobertura do Fundo Garantidor de Créditos. A medida acabou apelidada de “Emenda Master” por investigadores e pela imprensa porque poderia interessar diretamente ao modelo de captação do banco. O registro oficial do Congresso confirma que a Emenda 11 foi apresentada por Ciro Nogueira e posteriormente rejeitada pelo relator Plínio Valério.
A PF passou a investigar se Wagner acompanhou politicamente temas de interesse do Banco Master.
Segundo os investigadores, mensagens e encontros indicariam participação do senador em conversas relacionadas à emenda, ao crédito consignado e a outras questões regulatórias envolvendo a instituição. Em agosto de 2024, Wagner também teria demonstrado interesse pela situação do banco durante contatos com Augusto Lima.
A defesa de Wagner contesta essa interpretação. Seus advogados afirmaram ao STF que o senador nunca favoreceu o Banco Master. Como argumento, citaram uma emenda de autoria do próprio Wagner à Medida Provisória 1.106/2022 que, segundo a defesa, buscava limitar juros e proteger consumidores, em sentido contrário aos interesses econômicos do banco. A Lei 14.431/2022, resultante daquela medida provisória, ampliou as regras e margens para operações de crédito consignado.
O conjunto ganha peso para a investigação quando cruzado com a proximidade pessoal identificada entre Wagner e Augusto Lima. A Polícia Federal contabilizou 74 ligações atendidas entre os dois de novembro de 2023 a maio de 2025, somando cerca de cinco horas e meia. Em outros braços da investigação, a corporação analisa viagens em aeronaves ligadas ao empresário, ingressos para shows e a negociação de um apartamento de R$ 2,45 milhões em Salvador.
Wagner nega ter recebido propina e afirma que sua relação com Augusto Lima era de amizade. Sobre o apartamento, reconheceu que pediu ao empresário ajuda para viabilizar temporariamente a aquisição de uma unidade para a filha, alegando que pretendia recomprar posteriormente o imóvel. O senador não foi condenado pelos fatos e as conclusões da Polícia Federal permanecem submetidas ao contraditório, à análise do Ministério Público e ao Judiciário.
A dimensão do caso ficou ainda maior na sexta-feira (11), quando André Mendonça retirou o sigilo de 39 processos que estavam no STF. Entre eles aparecem as Petições 16.210 e 16.229, relacionadas às investigações sobre Wagner e Augusto Lima. A abertura amplia o volume de documentos acessíveis e coloca a conexão baiana do caso Master novamente no centro da disputa política nacional às vésperas da eleição.
Saiba mais
Escândalo no STF tem frente na Bahia: caso Vorcaro alcança Jaques Wagner e reacende debate sobre Rui Costa
Segundo Jaques Wagner, dólares e euros apreendidos pela PF vieram de diárias do Senado
TVS1 Notícias da Bahia, Salvador, Política e Esporte